OK, PARVOÍCES: Estive a reflectir um pouco sobre os órgãos dos sentidos. Comprei um no outro dia. Não há ninguém melhor a quem comprar um órgão do que a pessoas que estão constantemente a dizer 'eu peço imensa desculpa, a sério, sinceramente eu não queria que isso acontecesse, mesmo, desculpa, a sério...'. RC
27.5.04
26.5.04
ENTUSIASMO: Não podia deixar passar em branco a vitória do FCP na Liga dos Campeões. E cá está, não deixei passar em branco a vitória do FCP na Liga dos Campeões. RC
24.5.04
BISTURI: Um amigo meu que acabou de fazer 18 anos está a fazer circular um mail em que diz que vai dar entrada no hospital para implantar algum tecido peniano. Acho bem: investimentos a longo prazo são sempre bons. RC
23.5.04
VÍCIOS: Segundo pesquisas recentes, a primeira fala que Shakespeare tinha escrito para Julieta era 'Tenho uma espinha interior no queixo / Não se vê mas Deus! como dói', no original 'An inner pimple I have in my chin / One can't see it but Oh God! it hurts', dirigindo-se a sua mãe no início da terceira cena do primeiro acto. Eu sempre disse que aquilo de comer pacotinhos de Silica Gel não podia ser bom. Passassem por uma sapataria e era ver o maior dramaturgo de todos os tempos a lamber os interiores das sapatilhas. RC
OPTIMISMO: A cada dia me surpreendo mais com as pessoas. Estava a falar com o Schopenhauer, normalmente um pessimista militante, e ele vira-se para mim e diz 'sabes? eu tenho uma rótula. E vai-se a ver, mesmo ao lado, tenho outra'. Já quando Hegel me disse, nunca mais me esqueço, 'eu tenho dois pés', eu achei que a filosofia tinha atingido o seu ponto de viragem. Mas o Schopenhauer surpreendeu-me. Dos meus amigos com nomes difíceis de escrever, Schopenhauer é de certeza o mais culto. Não porque seja filósofo, mas porque sabe ver as horas num relógio de ponteiros. Sempre admirei esse tipo de pessoas. RC
21.5.04
FACAS: No outro dia, quando uma faca me caiu acidentalmente com a lâmina virada para uma das mais importantes veias do pulso esquerdo, comecei a pensar em suicídio. E lembro-me que uma das primeiras geniais conclusões a que cheguei foi que o suicídio colectivo é uma maneira genial de muitas pessoas se matarem ao mesmo tempo. RC
COLECCIONANDO BEXIGAS: Abriu ontem, no Metropolitan Museum of Art, a mais controversa exposição de arte visceral desde que um artista desconhecido se propôs a cortar os lóbulos das orelhas de todos os visitantes do museu para fazer a sua derradeira obra, de título 'Não sei bem o que é, mas tem vermelho'. Martin Friedmann abriu ontem as portas do MoMA para apresentar a sua colecção de aparelhos urinários humanos. O que se segue é a transcrição de um dos textos escritos pelo artista para serem ouvidos nos AudioGuides do museu.
‘Esta primeira obra que podem ver é o primeiro órgão humano que eu retirei, curiosamente a uma pessoa que me disse, nunca mais me esqueço: ‘o que é que está a fazer? ponha lá isso no sítio outra vez.’ É, como todos podem ver, uma bexiga, e o facto de ter escolhido envolvê-la com papel de embrulho de Natal, por acaso até com uns Pais Natal desenhados, prende-se com o facto de eu não ter, à altura, nenhuma embalagem de película aderente. Toda a gente que se dedica à remoção de órgãos humanos sabe que a melhor maneira de os preservar é embrulhá-los em película aderente. Bolsas para documentos também são giras, mas o sangue fica todo depositado no fundo, e com uma bexiga um bocadinho mais dilatada aquilo rebenta tudo. Já dizia Cervantes: ‘Consegues lá meter vinte páginas de texto, mas tenta lá meter uma bexiga e vê o que acontece’.’ RC
20.5.04
VIZINHOS: Ainda agora, o Kierkegaard bateu-me à porta e pediu-me um raminho de salsa. Isto dos existencialistas não saberem onde põem as coisas cansa-me bastante. RC
TENHO DE TRATAR DISSO: Quando vejo pessoas a discutir os seus nomes preferidos para bebés, não consigo deixar de pensar nos meus nomes preferidos para ditadores. E a propósito disso, não posso deixar de transcrever algumas passagens dos recentemente descobertos cadernos (uma espécie de diários) que Hitler mantinha durante os seus primeiros anos de escola.
Braunau am Inn, 6 de Outubro de 1899: A sério, cada vez que eu olho melhor para a minha irmã, mais me parece que o nariz dela é enorme. Não sei porque, mas isso parece-me feio. Tenho de tratar disso.
Braunau am Inn, 8 de Outubro de 1899: Hoje na escola fiz um desenhos muito bonitos, com uns rapazes louros e fortes de olhos azuis. A Frau Milner gostou, mas comentou que os narizes deles eram muito pequenos. Agora que me ponho a pensar, o nariz dela é brutal. Tenho de tratar disso.
Haselbach, 9 de Outubro de 1899: Hoje não estou em Braunau am Inn.
Braunau am Inn, 12 de Outubro de 1899: Ontem fui com o papá e a mamã ao senhor doutor, que se chamava Dr. Bergstein. Ele espetou uma agulha e fez doidói. A partir de ontem não gosto de pessoas cujo nome seja como o dele. A propósito, o nariz dele também era enorme. Tenho de tratar disso.
[...]
Braunau am Inn, 20 de Abril de 1900: Hoje o menino faz anos. O papá, apesar de eu já ter onze anos, insistiu em chamar um palhaço para animar a minha festa. Ele tinha um nariz do mais monstruoso que eu já vi. Não gostei. Tenho de tratar disso.
Braunau am Inn, 22 de Abril de 1900: A Frau Milner continua a desautorizar-me. Hoje, quando lhe disse que ia ser um pintor famoso, ela disse 'não diga disparates, menino Adolfinho'. E aquele nariz continua a provocar-me. Tenho de tratar disso.
Braunau am Inn, 23 de Abril de 1900: Que giro, hoje tivemos outra professora, a Frau Tillberg. Parece que a Frau Milner apareceu morta com um tubo ligado a uma botija de gás enfiado no nariz. Eu sempre disse que o nariz era enorme: o tubo era de 15 mm. Só que esta tem 'berg' no nome. E um nariz igualmente grotesco. Tenho de tratar disso.
Braunau am Inn, 26 de Abril de 1900: Hoje, no caminho da escola para casa, uma senhora disse que eu um dia ia matar muitos milhões de pessoas. Eu disse 'tenha juízo' e dei-lhe uma pancada seca na nuca. Porque eu ainda comecei agora a escola e não sei quanto é um milhão. Agora tenho aqui um cadáver debaixo da cama e não sei o que lhe fazer. Se eu tivesse umas grandes furnas podia queimá-lo. Tenho de tratar disso. RC
19.5.04
CONVERSAR: Gosto de começar as minhas conversas por perguntar 'então? coisas extremamente interessantes que se passem?'. No fundo, estou sempre à espera que falem de mim: eu sou uma coisa extremamente interessante e passo-me, às vezes. RC
REFLEXÕES CLÍNICAS: Se há coisa que sempre me pareceu uma boa invenção é, sem dúvida, a epiglote. Porque aquilo de termos de nos inclinar para trás quando queríamos engolir qualquer tipo de alimento era muito chato. Desde que se fizeram as implantações em massa de epiglotes (a melhor ideia de sempre de implantações em massa, muito melhor do que quando uma caixa de fettucini decidiu fazer um implante capilar), pelo menos a vida hospitalar acalmou um pouco. Aquilo de retirar com pinças pedaços de alimentos dos brônquios das centenas de vítimas de engasgamentos que todos os dias iam às Urgências era muito cansativo. Para se ter noção de como era grave a situação acho que basta dizer que, na altura, o Nobel da Medicina era atribuído a qualquer pessoa que soubesse fazer a Manobra de Heimlich. RC
18.5.04
C1 E M15b: Dos livros que estou a ler furiosamente agora, acho que o 'Código da Estrada' é aquele cujo fim espero mais impacientemente. Estou mortinho por saber se, no final, o sinal vertical de sentido proíbido sempre acaba por ficar com a seta de selecção de via. Se bem que o personagem do robot de sinalização rodoviária também tem profundidade psicológica. Aquele impermeável amarelo é um processo nitidamente queirosiano. RC
17.5.04
ESTUDANDO: Neste momento devia estar a estudar. O facto de estar a escrever este post leva-me a pensar que não estou. Mas tudo bem, por mim tudo bem. RC
OK, cá estamos. Chegámos à blogosfera com aquela noção vaga de que temos algo para dizer, curiosamente a mesma noção que temos quando nos acertam com um martelo na nuca com bastante força. A partir de hoje, encarem este blog como o repositório de toda a verdade absoluta, de todos os dogmas admitidos, mas também de todas as filosofias e de todas as perguntas. E de bolo de chocolate. Apesar de Kant não gostar de bolo de chocolate. Ele sempre dizia 'I can't stand chocolate cake'. O que é parvo, visto que ele era alemão. O Kant sempre foi bastante presunçoso.

